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Pós-consumo e meio ambiente: ensaio sobre o descarte incorreto das bitucas nos centros urbanos.

Atualizado: Jan 30

Natalia Zafra Goettlicher - 22/11/2018

O tabagismo é um problema global de saúde pública já há algumas décadas. Estima-se que o número de fumantes no mundo é de 1,6 bilhão (OMS, 2016), que descartam, individualmente, cerca de 7,7 de bitucas de cigarro por dia, o que totalizam, aproximadamente, 12,3 bilhões de pontas de cigarro descartadas diariamente (ACT). Deste total, infelizmente, não são todas as pontas de cigarro que são descartadas em lixeiras com destinação para aterros sanitários controlados e um número mínimo são destinados para a reciclagem, que seria o mais adequado atualmente. Por isso, o descarte ideal desse material é de extrema importância, já que os filtros de cigarro retêm mais de 4,7 mil substâncias tóxicas dentre elas arsênico e chumbo, que são metais pesados que podem contaminar fumantes e não fumantes. Além de demorar mais de 5 anos para se decompor pelo fato da maioria deles serem produzidos com acetato de celulose (ARRUDA, 2016).

Também é importante afirmar que além dos males para saúde humana, os resíduos dos cigarros causam impactos negativos no meio ambiente, os quais podem contribuir com entupimento de bueiros em centros urbanos, consequentemente, provocar enchentes em períodos chuvosos; queimadas em locais com vegetação seca; infertilidade de solos e contaminação de rios, lagos e oceanos (ARRUDA, 2016). Este último, por sua vez, tem sido um dos ambientes mais prejudicados, pois acaba sendo o destino final das pontas de cigarros descartadas em ruas e calçadas de grandes centros urbanos. Isto é, em um cenário costeiro, este tipo de resíduo pode ser engolido por animais marinhos junto com outros resíduos plásticos confundidos como alimentos, o que pode causar grandes contaminações na cadeia alimentar (MARTINS, 2017). Segundo o último relatório da ONG Ocean Conservancy, somente em 2017 foram coletadas das praias de diferentes países mais de 2,4 milhões de bitucas.

Interessante notar que este cenário está mais presente no Brasil, após o surgimento da Lei Antifumo, número 12.546/2011, a qual proibiu os indivíduos de fumar em lugares totalmente e parcialmente fechados em todo país, o que se tornou mais comum ver os filtros de cigarro descartados incorretamente em diferentes vias públicas. Estima-se que os fumantes tenham ciência dos impactos socioambientais deste tipo de resíduo, porém o descarte incorreto acaba sendo um mau hábito que reflete no comportamento de muitos fumantes independente da classe social, o que, consequentemente, elevam os gastos públicos, prejudicam a saúde pública e a preservação do meio ambiente.

Outra lei recente criada no país foi a Lei 12.305/2010, Política Nacional de Resíduos Sólidos, que utiliza o termo responsabilidade compartilhada para responsabilizar o Governo, as indústrias e os consumidores pelo gerenciamento de resíduos e realização da logística reversa. Ou seja, o Governo é responsável por fiscalizar, a indústria pelo desenvolvimento de produtos que reduzem a geração de resíduos e o consumidor por refletir qual produto irá consumir e como irá descartar. Observa-se que é um problema comportamental do consumidor fumante, que pode ser reduzido por meio da conscientização para o descarte correto das bitucas tanto oriundas de ações sustentáveis da indústria, quanto de ações de educação socioambiental dos próprios fumantes, uma vez que se trata de uma questão de saúde pública e preservação ambiental segundo Marchi, Machado e Trevisan (2014).

De acordo com a Pedagogia do Oprimido desenvolvida por Freire (2010), a educação sozinha não transforma a sociedade. Mas sem uma educação de qualidade, crítica, contextualizadora e sensibilizadora a sociedade também não pode se transformar. Portanto, há tempo para mudar esta situação destruidora se cada indivíduo se libertar, buscando a superação de seus problemas com criatividade. Ou seja, é possível mudar, deixando de ser oprimidos e passando a serem agentes transformadores. Tendo isso em vista, os indivíduos, fumantes e não fumantes, precisam agir de forma coletiva e participativa para não prejudicar diretamente toda a humanidade.

Para esta mudança acontecer é necessário ter planejamento, agir em conjunto e construir a interpretação dos fatos tendo como fases importantes da pesquisa-ação, que, por sua vez, formam um ciclo segundo Lewin (1946). Este tipo de pesquisa torna a busca da solução dos problema mais participativas entre os diferentes atores envolvidos,pois envolve os pesquisadores e os sujeitos da problemática retroalimentando um sistema metodológico cíclico e aberto em conjunto com a escolha de instrumentos (dialéticos e não-dialéticos); construído por etapas sequenciais de planejamento, ação e interpretação dos fatos de acordo com Toledo et al (2012).

Atualmente, existe um movimento socioambiental brasileiro chamado Mundo SEM Bitucas, que busca utilizar vários instrumentos da pesquisa-ação para engajamento da população fumante e não fumante. Por exemplo, palestras e debates sobre problemática do descarte incorreto das pontas de cigarros em nosso meio ambiente, oficinas mão na massa que ensinam a criar bituqueiras portáteis com materiais pós-consumo, mutirões de limpeza em parques, praias e universidades, e desenvolvimento de campanhas de mobilizações em mídias sociais como forma de atingir o maior número de indivíduos possível com o objetivo de desenvolver uma mudança local e, posteriormente, global.

Portanto, para o Brasil atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) previstos na Agenda 2030, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, será importante investir em educação de qualidade para formar cidadãos críticos e sensibilizados com o poder de transformar a realidade de forma participativa. Uma vez que, a sociedade vive em tempos difíceis, que são necessárias mudanças e engajamento de todos para a resolução das causas dos problemas como atores deixando de ser oprimidos. A invisibilidade das pontas de cigarros em vias públicas deve reduzir bastante nos próximos anos, pois a temática do descarte inadequado dos resíduos sólidos plásticos está em evidência após a campanha “Mares Limpos” desenvolvida pela ONU (2017). Esta divulgou dados alarmantes sobre os impactos ambientais dos resíduos nos oceanos. Em consequência, o resíduo do cigarro está ganhando visibilidade aos poucos de forma global, o que fortalece a consciência dos impactos e interesse dos cidadãos não fumantes engajarem-se e fiscalizarem, cada vez mais, os maus hábitos dos fumantes brasileiros em função também da lei nacional Antifumo.


Referências bibliográficas:

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Querol MAP, Jackson-filho JM, Cassandre MP. Change Laboratory: uma proposta metodológica para pesquisa e desenvolvimento da aprendizagem organizacional. Administração: Ensino e Pesquisa, Rio de Janeiro, v. 12, n. 4, p. 609-640, Out/Nov/Dez 2011.

TOLEDO R.F; GIATTI, L.L. CUTOLO, S.A. BARREIRA L.P.; PELICIONI, M.C.F. Um sistema metodológico aberto, dinâmico e legítimo na participação: uma experiência multidisciplinar com pesquisa-ação em Iauaretê/AM. In: Toledo, R.F.; Jacobi, P.R. A Pesquisa-ação na interface da saúde, educação e ambiente: princípios, desafios e experiências interdisciplinares. São Paulo: Annablume; FEUSP; PROCAM, IEE, FAPESP, 2012 (Coleção Cidadania e Meio Ambiente), p. 115-131.


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