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RECICLANDO VALORES

Atualizado: 6 de Ago de 2019

Monica Ferreira da Costa

Recife, 30 de julho de 2019 (dia seguinte do dia de sobrecarga da Terra em 2019).



Não se trata de dar lição de moral nos fumantes, mas de chamar a atenção de todos sobre algo que naturalizamos, assim como o racismo, o machismo, a homofobia, a misoginia e, lamentavelmente, o descaso pelo meio ambiente. Sempre que alguém se incomoda e reúne as forças necessárias para reclamar (pois reclamar de algo que está naturalizado na sociedade inevitavelmente trará ataques covardes, incompreensão e escárnio de muitos) surge um problema que ninguém tinha pensado antes! Assim é com as bitucas de cigarro que vemos no chão das cidades, nos pátios das instituições públicas e privadas, na porta das escolas, no seu quintal. “É só uma bituquinha, a gente nem nota mais!”. Pois é, também não era só um plastiquinho, conforme podemos facilmente perceber agora...

Minha geração (~50 anos) passou a adolescência ansiosamente aguardando a estréia da próxima propaganda do Hollywood; torceu para os pilotos de F1 patrocinados pelo Marlboro; aprendemos a “levar vantagem em tudo”, como dizia o Gérson de Oliveira Nunes na propaganda do Vila Rica - nascemos sob a cultura do cigarro. Era chique, era símbolo de status, era determinante de tendências estéticas, musicais, de comportamento. A marca de cigarro que seus pais fumavam era sinal da sua classe social. Alongava a silhueta, era símbolo da libertação feminina. Como não achar o máximo fumar? Como não naturalizar essa prática de enorme apelo social com o poder de projetar alguém pirâmide acima flutuando em suas sedutoras rodelinhas de fumaça? Isso tudo era, logicamente, muito bem arranjado pelas estratégias de marketing de uma indústria poderosa. Como a do plástico é atualmente.

Pois era assim. Atualmente, abertamente conhecidos todos os malefícios do cigarro, estamos em uma cruzada (talvez Quixotesca!) para reverter esses valores. Muito já se alcançou através de estratégias voltadas para a redução do tabagismo. O Brasil (que muitos dizem fazer tudo errado) teve um enorme sucesso nessa empreitada, se tornando exemplo mundial, apoiado e copiado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Reduziu-se significativamente o número de fumantes no país[1]. Ainda temos muito a ser feito, pois todos os anos novos jovens ingressam no grupo dos fumantes. Não por falta de informação sobre os potenciais danos à saúde (deles e das pessoas mais próximas), mas porque “é só um cigarrinho”. Essa falsa inocência típica da naturalização se estende ao meio ambiente, às consequências do tabagismo para o meio ambiente[2], e, finalmente, para todos nós: humanos, peixes, alfaces, elefantes, abelhas, hortelã, seus pets... toda a árvore da vida.

Possivelmente, uma das piores consequências do tabagismo é o descarte inadequado dos filtros dos cigarros já fumados, as bitucas. Elas são um tipo de resíduo relativamente recente na história do consumo secular do tabaco. A prática foi, em uma análise bem radical, uma apropriação cultural dos europeus contra os índios norte americanos nos primeiro momentos da colonização. Já começou errado daí. O filtro só foi inventado em meados do século passado, quando se começou a notar os problemas de saúde causados pelo fumo. Antes, fumava-se cigarros sem filtro (ainda comuns em alguns lugares e grupos sociais) ou com cigarrilhas, que não eram descartáveis.

Mas eis que os filtros fizeram sucesso se baratearam e... assim como copinhos, pratinhos, garrafinhas, canudinhos, sacolinhas e toda a família dos descartáveis, se tornaram de uso único e universal. Então pode jogar fora de qualquer jeito, né? Não é assim que fazemos? Vamos jogar no chão! Um “primo do avô do sobrinho do meu amigo” disse que é de papel! É só uma bituquinha!

E hoje elas são o tipo de resíduo mais encontrado (em número) no meio ambiente. Sim, eu sou oceanógrafa, mas não estou falando só de praias. Estou falando de meio ambiente (definido como “tudo que existe além de você”): no solo, no chão, na praia, no mar, nos rios, na atmosfera, no gelo... aham!

Não fico surpresa que isso provoque todo tipo de reação nas pessoas, da indignação ao descaso, incluindo o empreendedorismo. Mas é bom lembrar que, no caso das bitucas, precisamos reciclar valores, não as bitucas. O objetivo máximo deveria eliminar as bitucas, ou seja, eliminar/controlar a fonte do problema - princípio norteador do combate sério à poluição ambiental. Bituca não se recicla. Não há economia circular, logística reversa, ação de sustentabilidade, enfim, nenhum conceito ainda foi (ou será) desenvolvido que abrigue uma solução viável em longo prazo para as bitucas. Para elas, resta apenas não serem produzidas. Mas isso é uma outra bandeira. Vamos tratar de tremular aqui a nossa das ameaças ao meio ambiente causadas pelo pós-consumo do cigarro.

Não vamos reciclar bitucas[3]. Por que? Porque reciclar envolve recolher, estocar, tratar e dar destinação adequada aos produtos e resíduos do processo de reciclagem. No caso das bitucas, isso envolveria expor pessoas a um trabalho árduo e a um resíduo perigoso, gasto de energia, espaço e reagentes (recursos naturais) e a geração de um produto (celulose) contaminado e resíduos sólidos e líquidos de alto potencial tóxico. Ou seja, reciclar bitucas pela celulose é dar um tiro no pé. É espalhar o problema por diversas fases, gastar energia e expor pessoas. Demanda sobre esse tipo de matéria prima para a geração de um produto difícil de colocar no mercado fazem uma combinação quase tão diabólica quanto a própria indústria do cigarro. Quase uma segunda personalidade de um monstro, igualmente perverso e devorador, mas não só de homens – mas de toda a vida na Terra.

Também não vamos compostar bitucas. Por quê? As bitucas não se degradam nunca (na escala de tempo que se deseja em uma compostagem) nem biológica, nem quimicamente. Elas são um polímero sintético feito para não se degradar. Dessa forma, elas iam entrar na composteira e iam ficar lá "para sempre". Isso é apenas o primeiro aspecto, o de fazer o processo funcionar, mas tem os desdobramentos. Há a questão da toxicidade, presente desde a coleta, pois os colaboradores teriam que manusear as bitucas – mesmo usando EPIs. Depois há questão de que tanto a celulose quanto o tabaco restantes do ato de fumar estão impregnados de substâncias tóxicas (umas 5.000) e não há microrganismo que use isso como substrato. Minhocas, nem pensar! Por fim, onde usar um composto orgânico contaminado? Vai plantar o que com isso? Mesmo que não seja alimentos, vai contaminar o solo onde for aplicado e as plantas que ali crecerem. Não dá, né?

Mas então, o que fazer? Bem, o melhor é não fumar. Mas, se houver a geração de bitucas, que sejam recolhidas em recipientes adequados, que possam ser levados à co-produção[4] com um mínimo de manuseio. É nisso que precisamos investir. Pesquisa sobre formas de como nos alinharmos a um círculo virtuoso de ações: parar de fumar, destinar adequadamente as bitucas restantes, cuidar do passivo ambiental até o maior nível de detalhe possível.

Vamos desnaturalizar as bitucas das nossas paisagens urbanas e rurais, terrestres e aquáticas, presentes e futuras. Gerar lixo nos padrões atuais não é normal. Jogar lixo no chão não é normal. Jogar bituca no chão não é normal, nem certo, nem aceitável, nem desculpável, nem nada disso. É crime ambiental!


[1] Confira o último relatório da OMS sobre o assunto, que foi publicado recentemente, em: https://portal.fiocruz.br/noticia/relatorio-da-oms-sobre-tabaco-destaca-brasil (acesso em 30/07/2019)


[2] Confira em A critical review of the issue of cigarette butt pollution in coastal Environments. Maria Christina B. Araújo & Monica F. Costa. Environ. Res. 2019, 172, 137–149. https://doi.org/10.1016/j.envres.2019.02.005


[3] Confira em From Plant to Waste: The Long and Diverse Impact Chain Caused by Tobacco Smoking. Maria Christina B. Araújo & Monica F. Costa. Int. J. Environ. Res. Public Health 2019, 16(15), 2690; https://doi.org/10.3390/ijerph16152690.


[4] Uso em fornos industriais como combustível, assim como é feito com diversos outros resíduos: óleo de carro, por exemplo.

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