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Precisamos falar sobre bitucas nas praias

Atualizado: Mai 30

Por Christiane Freire Lima, mestranda do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Ecologia Marinha e Costeira da UNIFESP.


Imagens que representam a pesquisa com bitucas de cigarro realizada por Christiane Freire Lima.


A pedido da equipe do Mundo SEM Bitucas, contarei um pouco sobre a minha experiência e os resultados da minha dissertação de mestrado realizado na UNIFESP – Baixada Santista. No final de 2018, por meio de uma parceria com o Instituto Mar Azul (IMA) que realiza ações de Educação Ambiental e mutirões de limpeza em praias, a Unifesp analisou os resultados de coletas de lixo marinho em Santos-SP. Os dados indicavam que as bitucas de cigarro eram um dos principais itens encontrados pelos voluntários do IMA e, afim de entender melhor a dinâmica deste resíduo em ambiente marinho, fui convidada pelo professor Dr. Ítalo Braga de Castro a desenvolver um estudo para avaliar os impactos das bitucas de cigarro.

Apesar dos males do cigarro à saúde humana serem amplamente conhecidos, ainda há lacunas no conhecimento a respeito da problemática ambiental relacionada ao pós-consumo de produtos derivados do tabaco. Neste contexto, foi realizada uma avaliação qualitativa da ocorrência de bitucas em um trecho de praia de Santos a partir dos dados cedidos pelo IMA e, em laboratório, foram realizados ensaios para determinar o tempo de permanência das bitucas em coluna d’água e testes para avaliar os efeitos sobre a fecundidade do crustáceo Nitokra sp a partir da exposição a lixiviados de bitucas.

Foram realizadas duas coletas no verão e inverno de 2019 em uma faixa de areia totalizando uma área de 111.966 m2. Todos os resíduos com tamanho acima de 1 cm foram coletados e distribuídos em 10 categorias. Confirmando os resultados já encontrados em pesquisas no Brasil e em outros países, a bituca de cigarro foi o primeiro e o segundo item mais encontrado nessas coletas. A partir das bitucas coletas, realizei um levantamento obre as marcas mais encontradas que serviram como referência para aquisição dos cigarros utilizados nos testes de sedimentação e toxicidade.

A fim de verificar o tempo de permanência das bitucas na coluna d’água, foram realizados testes com e sem agitação utilizando as duas marcas de cigarro mais encontradas nas coletas. Os dados mostraram que a bituca permanece flutuando por um tempo variável independente da marca, porém sempre superior a 3 dias. Esses resultados sugerem que ao ser descartada no ambiente, a bituca de cigarro permanece por um período na água e depois se deposita no sedimento, ou seja, este resíduo pode atingir diferentes compartimentos ambientais quando descartado no ambiente.

Para os ensaios de toxicidade, fêmeas ovadas do crustáceo Nitokra sp foram utilizadas para avaliar os efeitos do lixiviado de bitucas sobre a taxa de fecundidade. Tanto os testes com água quanto os testes com sedimento revelaram significativa redução na fecundidade em diferentes diluições de lixiviado. Os testes indicaram que menos de 0,5 bituca por litro de água já é suficiente para induzir efeitos deletérios sobre os organismos. Estes resultados sugerem que apesar de não causar a mortalidade imediata dos organismos de uma espécie, a presença de uma pequena quantidade de bitucas pode ser suficiente para causar efeitos negativos a médio e longo prazo sobre o desempenho de suas funções no ecossistema.

Os resultados da minha pesquisa sugerem que a biota aquática pode estar sob potencial ameaça uma vez que as bitucas de cigarro estão amplamente difundidas no ambiente e, eventualmente, podem chegar a ambientes marinhos e costeiros. Uma vez que esse resíduo é o item mais encontrado em campanhas mundiais de limpeza de praias, estudos como este são necessários para fornecer informações para a criação de políticas públicas de redução deste resíduo e esclarecer a população sobre os impactos ambientais associados às bitucas.


Conheça mais sobre a pesquisa assistindo ao vídeo pelo link: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=3302146466491585&id=100000887919691


#PorUmMundoSemBitucas







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