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O problema das bitucas, EM NÚMEROS!

Por: Ivan Moroz - Doutorando na FCA - UNESP Botucatu em 13/02/2020


Foto tirada da sarjeta de uma rua no bairro da Liberdade em São Paulo por Natalia Zafra Goettlicher.


A problemática da destinação incorreta de filtros de cigarro já fumados (as famosas bitucas) não é atual; em passados recentes já se via uma quantidade significativa deste resíduo nas ruas, nas calçadas, nas praias e em tantos outros ambientes.

Duas possíveis razões para o fato são: i) uma cultura pobre arraigada na população, cuja ideia é evitar ao máximo qualquer trabalho considerado “desnecessário” (no caso, o deslocamento até uma lixeira para o correto descarte), e ii) uma ideia geral errônea de que, devido às suas diminutas dimensões, as bitucas não seriam tão perigosas para o meio ambiente.

Toda generalização é incauta, e neste caso também; felizmente, sempre houve quem se atentasse às questões ecológicas do “mundo fora da própria casa”. Com o desenrolar da história, tais vozes se fizeram mais presentes e foram mais ouvidas, angariando maior robustez e, finalmente, conseguindo causar questionamentos a nível global, notadamente com maior influência desde o ano de 1992, quando ocorreu a ECO-92.

Ainda que haja muita falta de conhecimento, as informações sobre os danos das bitucas incorretamente descartadas no meio ambiente estão ficando mais acessíveis, aumentando o nível de conscientização da população sobre esta questão. Além da nicotina, uma substância de alta toxicidade, ainda há os resquícios dos mais de 4000 compostos químicos nocivos presentes nos cigarros. Porém, quando se abordam números, é fácil perder-se em níveis de grandeza, prefixos e sufixos.

O cérebro humano consegue produzir facilmente a percepção de quantidades quando tratamos de coisas cotidianas: um par, uma dúzia, uma centena. Quantidades massivas, entretanto, são de difícil percepção; o cidadão médio perde-se facilmente ao comparar milhão e bilhão, por exemplo. O nível de diferença entre os montantes citados passa despercebido.

No caso das bitucas, falar de números é imprescindível. Não se pode ter uma correta ideia da dimensão do problema sem entender quantitativamente a questão, que é regida tanto por números estratosféricos quanto por proporções mínimas, como discutiremos a seguir.

Você tem ideia de quantos usuários de tabaco existem no mundo? Pensando em termos de porcentagem, qual a proporção entre fumantes e a população total humana? Pois é, dá para refletir muito sobre o assunto. A verdade é que aproximadamente 13% de nós humanos somos usuários de tabaco, ou 1,14 bilhões de pessoas (WHO Report, 2019) [1].

Agora imagine 1 bilhão de pessoas fumando durante o período de um ano. Você consegue estimar o número de cigarros produzidos anualmente, no mundo inteiro?

O número é estarrecedor: de acordo com o Tobacco Atlas, de 2018, no ano de 2016 estimam-se 5,7 TRILHÕES de cigarros fabricados [2]. Como dito anteriormente, um trilhão não é simples de se entender. Nosso cérebro não tem a capacidade de compreender este número facilmente, então façamos uma analogia.

Um milhão de segundos equivale a, aproximadamente, 12 dias.

Um bilhão de segundos, por sua vez, corresponde a 32 anos.

Um trilhão de segundos representa 32.000 anos, ou trinta e dois milênios.

Tente imaginar novamente. 5,7 TRILHÕES de cigarros produzidos anualmente. Um número estarrecedor, que se torna ainda mais perigoso quando avaliamos a toxicidade das bitucas. Quantas delas são necessárias para contaminar um rio? E o mar? Quantas podem causar mortalidade de espécies marinhas? E espécies terrestres?

Enquanto a reflexão dos parágrafos anteriores assusta pelas quantidades massivas, quando se considera toxicidade o temor se dá pelas pequenas quantidades. Vamos aos números:

- UMA BITUCA pode contaminar 1l de água, atingindo em 24 horas níveis de nicotina equivalentes a 14 vezes o limite considerado pela EU; 50% da nicotina é liberada em apenas 27 minutos [3];

- UMA BITUCA por metro quadrado foi capaz de causar contaminação de três espécies vegetais importantes (manjericão, hortelã-pimenta e coentro) acima do valor máximo residual de nicotina permitido por uma resolução da UE [4];

- UM DÉCIMO DE BITUCA (25,9 mg) por litro causou toxicidade aguda em uma importante classe de crustáceos aquáticos, conhecidos como “pulga d’água” ou “dáfnia” [5];

- UMA BITUCA por litro promoveu um nível de mortalidade de 50%, em 48 horas, de duas importantes espécies de peixes (sendo um de água doce, e outro de água salgada) [6];

- UMA BITUCA por litro causou nível de mortalidade de 50%, em 96 horas, de embriões de uma espécie de sapo africano [7].

Agora, pense novamente sobre a questão das bitucas, mas considerando as quantidades massivas produzidas (e incorretamente descartadas) frente às quantidades mínimas para que ocorra toxicidade nos mais diversos tipos de organismos.

A compreensão do contraste entre estes números é crucial, e deve ser divulgada e explicada ao maior número possível de pessoas para que haja o devido senso de urgência e importância da questão das bitucas. Seja um agente de informação, converse com as pessoas nas ruas, leve os dados. Muitas vezes, sofremos por ignorar informações que estão disponíveis, ao nosso alcance, mas sem nosso conhecimento; é dever dos informados levar o conhecimento àqueles ainda não inteirados da situação.


Referências:

[1] WHO Report on the Global Tobacco Epidemic, 2019. Geneva: World Health Organization; 2019. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO. Page 72.

[2] Drope, J., Schluger, N., Cahn, Z., et al. 2018. The Tobacco Atlas. Atlanta: American Cancer Society and Vital Strategies. https://tobaccoatlas.org/topic/consumption/.

[3] Green, A. L. R., Putschew, A., Nehls, T. (2014). Littered cigarette butts as a source of nicotine in urban waters. Journal of Hydrology, 519, 3466-3474.

[4] Selmar, D., Radwan, A., Abdalla, N., et al. (2018). Uptake of nicotine from discarded cigarette butts - A so far unconsidered path of contamination of plant-derived commodities. Environmental Pollution, 238, 972-976.

[5] Micevska, T., Warne, M. St. J., Pablo, F., et al. (2006). Variation in, and Causes of, Toxicity of Cigarette Butts to a Cladoceran and Microtox. Arch. Environ. Contam. Toxicol., 50, 205-212.

[6] Slaughter, E., Gersberg, R.M., Watanabe, K., et al. (2011). Toxicity of cigarette butts, and their chemical components, to marine and freshwater fish. Tobacco Control, 20 (Suppl 1), i25-i29.

[7] Parker, T.T., & Rayburn, J. (2017). A comparison of electronic and traditional cigarette butt leachate on the development of Xenopus laevis embryos. Toxicology Reports, 4, 77-82.

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